Os Limites Individuais da Sensibilidade

Música não é só algo mais para mim. Claro, ela é como aquele chocolate para o humor do Pedro (ou para o humor de muita gente). Mas ela é mais que um chocolate. Pergunto eu: como se sente uma pessoa que come um chocolate em um momento x ou em um momento y? Trata-se sempre da mesma sensação, invariavelmente? Não, e, para além disso, nunca saberemos exatamente como se sente tal pessoa no momento em que absorve aquelas moléculas, nem saberemos que efeitos decorrem do processamento desta ou daquela substância (no sentido “dentro da lei” do termo).

A música não é para mim só música, repito. E quando alguém não gosta do que eu gosto é como um indício de que ela nunca vai simpatizar com que eu sinto e nunca conseguirá se colocar em meu lugar. Não haverá empatia no sentido talvez webberiano, talvez não webberiano do termo. Ela não conseguirá colocar-se em meu lugar, sentindo o que sinto e com a intensidade de meu vivido deste momento.

Há também a questão do que pode ser exprimido por palavras e também a daquilo que é comunicável. A comunicação humana pode funcionar para muitas coisas, mas nunca ela funciona em um estado completo de intercâmbio. Nós “deixamos quieto” way too often, pomos as diferenças de lado e, assim, não as sentimos como o outro a sente ali naquele momento. Tal estado de coisas provavelmente decorre disso que podemos chamar, de maneira um tanto bizzarra, substancialidade do indivíduo (ou indiviso, ou ímpar, ou único, ou, por fim, idêntico). Ninguém está em dois corpos ao mesmo tempo e nenhuma fisiologia responderá da mesma maneira que uma outra fisiologia. A comunicabilidade intersubstancial, assim, é possível, mas sempre será limitada. E a música, aqui, serve-nos de exemplo.

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Closure do Caso Reinaldo Azevedo x Hermenauta

Desde o fim de 2007, quando Pedro Sette Câmara deu sua entrevista ao Protosophos, sou leitor do blog do Hermenauta, um funcionário público anônimo de Brasília. À época, o tal blogueiro criticou a suposta contradição entre um “fatalismo” dos astros e o livre-arbítrio, defendida por Câmara.

Desde então passei a ser um leitor praticamente assíduo e também alguém que assiduamente tinha discordâncias bravas com o sujeito, de quem no fundo gosto muito. Essas discordâncias sempre se deram no plano do diálogo, embora um diálogo bastante entrincheirado e razoavelmente agressivo, dadas as diferenças “ideológicas” grandes e a húbris ocasional.

Mas nunca o debate chegara a um ponto paroxístico como chegou quando Hermenauta criticou Reinaldo Azevedo por ser contra a pesquisa com células tronco porque as tais poderiam beneficiá-lo, visto que ele teve tumores no cérebro ou, vá lá, câncer. Não vou negar que o sangue subiu quando vi a luta ideológica ser feita de maneira tão baixa. Mesmo porque é óbvio que quem é contra tal pesquisa por motivos internos à sua própria consciência não é contra a medicina tout court.

O problema foi que, dias depois em outro post, eu me dirigi a outro leitor, na seção de comentários, e disse:

As críticas excessivas do Hermenauta contra o Reinaldo beiram o paroxismo, assim como a falta de respeito pelo colunista com câncer: piadas do tipo não beiram, pois ultrapassam a cafajestagem.

O “busílis” da questão, como diria Azevedo, é que parece que eu disse que Hermenauta fez piadas com o câncer de Azevedo. Talvez não simplesmente pareça, mas esteja sintaticamente implicado. Eu, sinceramente, não sei. Mas assumo que, bem, é o que parece e que foi essa a interpretação tomada por Hermenauta para me banir do blog dele por uma suposta calúnia.

Por isso e porque mais de um ano depois o assunto ressurgiu, quando o avisei, provocativamente, de que estava de volta*, tivemos uma longa conversa em sua caixa de comentários — a qual eu, muito imprudente, não deveria ter tido, já que tenho provas de fim de semestre para entregar na quinta e no sábado, e para fazer na sexta — e chegamos ao ponto em que ele disse:

OK, cara, já entendi: você não vai pedir desculpas. Portanto, sinta-se banido deste blog, again.

Antes de mostrar a minha resposta a isto, quero dizer algo. Por incrível que pareça, eu sou muito pouco arrogante (apesar de episódios casuais de húbris) e tenho toda a tranquilidade do mundo para reconhecer meus erros, desde que eles estejam claros e evidentes. Mas, como o desgaste foi realmente grande, e de fato as minhas palavras originais insinuavam que ele havia feito piadas com o câncer de Azevedo, eu escrevi o tal pedido de desculpas, para que fique claro que eu não tenho problema algum em descer de minha inexistente torre de marfim:

Hermenauta,

Eu reconheço que você NUNCA fez piadas com o câncer de Reinaldo Azevedo.

Além disso, assumo que a frase que dirigi ao Marcos estava mal formulada e poderia sim ser interpretada como dizendo que você fizera piadas com o câncer de Azevedo.

Não, você não fez piadas desse tipo. E eu peço desculpas por ter insinuado isso indiretamente.

***

Digo que mantenho a minha crítica original a ele, que é a seguinte: não se deve usar o estado de saúde de alguém para fazer guerra ideológica. E também, creio, a própria pessoa doente tem de respeitar o seu estado de saúde e não fazer uso dele para gerar publicidade. Reinaldo Azevedo não faz publicidade disto, e sim tenta lidar diariamente com as consequências da operação de retirada dos tumores. Para tanto, basta pensar por um segundinho na foto que o articulista disponibilizava em seu blog da Veja antes de aderir ao Wordpress e a foto que disponibiliza agora. Ou no fato de que se distribuíram chapeus na noite de autógrafos do seu livro sobre o “petralhismo”.

O que sinceramente me deixa enojado é ver que muita gente, embotada pelo ódio ideológico, escreve para Reinaldo fazendo troça de seu câncer diariamente, desejando-lhe a morte. Pois bem, Hermenauta não chegou ao ponto de fazer piadas, mas usou o fato para fazer crítica ideológica a respeito da pesquisa sobre células tronco. E não é difícil negar que o blogueiro de Brasília chega perto do ódio a Reinaldo Azevedo.

Enfim, posso até estar banido, mas com a consciência tranquila, para abusar do clichê.

Em tempo: é incrível como ideologicamente, em termos de economia de mercado e temas afins, Hermenauta e Reinaldo Azevedo oscilam entre a centro-direita e a centro-esquerda. Não é outro o motivo por que ambos já votaram em Serra, com muito orgulho… com muito amor. E também não é outro o motivo por que Hermenauta uma vez confessou-se para mim, naquela espécie de chat do Gmail, que se considera economicamente de direita.

* Sim, eu sei que ele provavelmente me lia, porque o Site Meter mostra o “domain name” dos visitantes e eu recebia visitas constantes de domínios gov.br que sempre me pareceram vir dele. É claro, não tenho certeza, mas acho provável, ainda mais por causa de visitas repetidas do domínio da Serpro (e casualmente da Abin, mas eu não acho que Gilberto Carvalho, bom conhecedor do caso Celso Daniel, usaria o novo SNI para vigiar alguém tão miúdo como eu).

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Helena Contra Penélope

Falava ontem sobre o duplo angélico das personagens, destruídoras de lares, de Scarlett Johansson. Antes, uma nota: não sei qual é exatamente o conceito de tal duplo na obra de René Girard e sinceramente não estou preocupado com isso. A expressão em si é útil para descrever algumas situações. Uma delas, a meu ver, é o que faz de alguém (ficcional ou real) ora “libertino”, ora “fideísta”. Que seja uma forma de esquizofrenia moral quando falamos de um mesmo sujeito, não haja dúvida.

Porém, para ir além de Hollywood, poderíamos falar também em uma segunda situação, que envolve então mais de uma pessoa. Poderíamos falar na Helena de Menelau, Páris, Deífobo e Menelau, que se reconhece constantemente como alguém que tem “cara de cadela” e podemos falar na Penélope de Ulisses, que apesar de ter o marido distante há vinte anos e uma série de cortejadores, simplesmente espera o retorno do esposo, que nem sabe se vivo ou morto (algo no nível do “to love pure and chaste from afar”, que consta de Impossible Dream, canção de Man of La Mancha).

Falamos de mulheres e aqui há o risco de misoginia, de machismo, e de todas essas coisas. Por isso devemos deixar claro que nesse cenário Páris e Helena estão no mesmo nível “canino”, assim como o tolo Duque de Mantua de Rigolleto, que canta La Donna È Mobile:

La donna è mobile
Qual piuma al vento,
Muta d’accento — e di pensiero.
Sempre un amabile,
Leggiadro viso,
In pianto o in riso, — è menzognero.

Isto é, “as mulheres sempre mudam, qual pluma ao vento, mudam de tom e pensamento; sempre amáveis, agradáveis à vista, no pranto ou no riso, sempre mentem”. Misoginia? Não, claro. O duque que canta isto, numa espécie maluca de paralaxe cínica, canta a si mesmo. Canta a si e ao ideal conquistador e promíscuo donjuanesco.

***

E qual é a saída? O ideal da castidade? Talvez, se entendermos castidade não como abstinência sexual, mas como compromisso monogâmico. Mas talvez, é preciso dizer, a castidade seja um construto racionalista contrário à natureza humana, que é móbile. Daí, por fim, a provável eterna tensão entre “a pluma ao vento” (Helena) e a tal “uma só carne” (Penélope).

***

Por fim, parece que no reino humano há uma divisão entre caninos, de ambos os gêneros, e de um não sei qual outro gênero, “quase virgem”, “quase casto”. E aqui cabe dizer que se Aristóteles estava certo ao dizer que o homem se define como “animal racional”, há de se dizer que, a despeito da “alma inferior” de que nos falava Platão, temos uma alma racional, dita superior, que nos distingue de todos os outros animais, provavelmente sem exceção de hábitos “caninos”.

Caberia então dizer que a natureza ou essência humana comporta uma diferença específica, a da racionalidade, que nos joga para o lado da Penélope multi-astuciosa de, e tal qual, Odisseu, a qual enrola todos os seus pretendentes ao tecer um paninho qualquer que à noite desfia. E sendo a natureza humana a diferença específica racional e não a similitude de gênero animal, ela não está do lado de Helena, “cara de cadela”.

Como nota, a tal superioridade racional — tida por Aristóteles como sendo a natureza ou essência humana — não se localiza no cérebro, que para ele tinha a mera função de resfriar o corpo, e sim na região do coração. Uma nota que mostra a ignorância do antiquado Aristóteles, que não conhecia a fisiologia moderna, sobre a qual Descartes e vários outros cometeram vários erros. Mas também uma nota de valor simbólico, gostaria de acreditar.

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Immanuel Kant Sobre a Vida e o Sexo

Rachel Juraski, por cujo blog passeei por algumas horas nesta madrugada, fez-me pensar sobre algumas coisas importantes. Há ali todo um lado caricato do que ela faz (não direi o que é sério e o que não é, porque eu teria dificuldades em fazer isso com coisas até solenes).

Ela me fez pensar (“oh, o horror”, como diria o faltoso e amicíssimo Thor Ribeiro do Protosophos).

E, em primeiro lugar, direi que foi sobre o dito de alguns amigos da filosofia que insistem em que a filosofia não é um fim em si mesmo e que ela serve sim e tem de servir para alguma coisa e principalmente para a vida deles (e me vêm à mente os nomes dos queridos amigos Daniel Nagase e Gustavo Paiva).

Eu adoro contrariar a imagem de santo palerma e inútil que um tal de Immanuel Kant conseguiu deixar para a posteridade, dizendo que para além de uma Crítica da Razão Prática e de uma Fundamentação da Metafísica dos Costumes, ele escreveu uma Antropologia de um Ponto de Vista Pragmático.

Para o não filosofante a menção pode parecer besta, mas explico: a moral kantiana, aquela do imperativo categórico, é vista como uma moral pura e principista (e aqui não interessa a inexistência da palavra). Uma moral em que a mentira seria impossível, mesmo que para isso se se tivesse de entregar um grande amigo ao exército inimigo que o trucidará. Porém, para além dessa moral principista, há em Kant também uma moral do dia-a-dia, aquela em que o que interessa são os meios para atingir certos fins (levar uma garota para a cama ou atingir o orgasmo feminino poderiam entrar aqui). Essa moral tem esse nome todo pomposo de antropologia pragmática.

Ler o blog de quem gosta da “coisa errada”* me fez pensar nisso, antes do café da manhã.

E me fez pensar, em segundo lugar, em todos aqueles filmes estrelados pela péssima atriz, nem tão bonita, Scarlett Johansson (sim, deveria dizer agora também cantora hype). Ela sempre faz o personagem da home wrecker — se é que me permitem a alcunha de um termo que já existe. Pelo menos nos quatro filmes que vi da rapariga: He’s Just Not That Into You (2009), Vicky Cristina Barcelona (2008), The Other Boleyn Girl (2008) e Girl with a Pearl Earring (2003). Trata-se sempre da personagem irriquieta, ora promíscua, ora quase virginal. E, sim, seus personagens são praticamente um duplo angélico** de si mesma, expressas esquizofrenicamente ao estilo Me, Myself & Irene (2000), com o sempre esquizofrênico Jim Carrey.

***

E, não, leitor, não pretendo que tudo que acabo de escrever tenha um fecho. Nem sequer progressão textual. Mas há uma unidade nessas ideias aí jogadas. Ter um blog é ter o direito de vomitar textos cheios de elos perdidos e ideias semi-desenvolvidas.

 
* Sim, Pedro Dória e Bruna Surfistinha são dois palermas, mas esse não é o assunto do post.

** É bastante possível que eu esteja falando besteira sobre a possibilidade de Scarlett Johansson interpretar personagens que sejam na verdade um só personagem esquizofrênico que se enquadra no caso do duplo angélico. A averiguar.

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O Enésimo Retorno

Os blogueiros anglófonos têm uma expressão na qual tenho pensado cada vez mais: sandbox. Sim, um blog pessoal não deixa de ser uma sandbox, uma caixa de areia em que brincamos ou fazemos outras coisas mais. Pois eu estive fora por um mês e meio. E estou aqui de novo. E sabem de uma coisa? Não farei esse joguinho imbecil de penitência.

Fato é que eu preciso de uma página na internet, para mostrar a cara, marcar meu nome, etc. Eu pensava até em fazer uma página genérica, daquele tipo que alguns acadêmicos têm nas páginas de suas universidades (refiro-me aos acadêmicos anglófonos). Mas ainda não tenho papers (nem uma lista deles, oras), nem sequer um currículo cheio de realizações para publicar. Não que currículos cheios de realizações valham alguma coisa. Mas o ponto é que eu precisava de algo genérico e tal, sem um blog, sem desavenças, sem isso, sem aquilo.

Conhecem aquele papo de só começar a escrever publicamente depois dos quarenta ou cinquenta anos? Pois eu queria e já quis muitas vezes fazer isso. Não consigo. E uma hora vou ter de estabilizar, diz a natureza.

E por que volto? Ora, há muitos bons motivos. Um deles é que fiquei com dó de desperdiçar um endereço que tem um page rank 4. Ora, blogueiros populares têm esse page rank. E eu nunca fui exatamente popular, então não cabia desperdiçar isso. O segundo motivo é que pensei em ainda outro modo de organização para a estrutura do blog. Se funcionar, se eu me adestrar e conseguir fechar em um assunto ou alguns assuntos, então dará certo.

Não, não começo do zero. Um page rank 4 não é começar do zero. Mas, sim, o que eu publiquei antes não estará mais aqui. Estará apenas gravado aqui no meu hd e pronto.

Por fim, o que eu não posso mais aceitar de maneira alguma é um linguajar “pseudo profundo” ou uma escrita “pseudo poética”. É claro que isso não significa ser contra a poesia, genericamente falando. Talvez eu publique poemas. Muita gente séria publica poemas, então eu também posso.

Há também um outro e último ponto: esse layout (um tema wordpress) ficará aqui por pouco tempo. Não perdi a mania de mudar constantemente, mas principalmente: não irei reprimir o desejo de fazer as minhas coisas serem do jeito que eu quero. E, sim, este blog é e sempre será meu canvas em branco. Minha sulfite de rascunho.

E, sim, o lançamento do Wordpress 2.8 é também um bom motivo para voltar.

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  • Quem Sou Eu

    Adriano Correia

    Estudante de filosofia pela Universidade de São Paulo (2006-2009 término esperado), nascido em 31 de março de 1987 em São Caetano do Sul-SP.

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