Desde o fim de 2007, quando Pedro Sette Câmara deu sua entrevista ao Protosophos, sou leitor do blog do Hermenauta, um funcionário público anônimo de Brasília. À época, o tal blogueiro criticou a suposta contradição entre um “fatalismo” dos astros e o livre-arbítrio, defendida por Câmara.
Desde então passei a ser um leitor praticamente assíduo e também alguém que assiduamente tinha discordâncias bravas com o sujeito, de quem no fundo gosto muito. Essas discordâncias sempre se deram no plano do diálogo, embora um diálogo bastante entrincheirado e razoavelmente agressivo, dadas as diferenças “ideológicas” grandes e a húbris ocasional.
Mas nunca o debate chegara a um ponto paroxístico como chegou quando Hermenauta criticou Reinaldo Azevedo por ser contra a pesquisa com células tronco porque as tais poderiam beneficiá-lo, visto que ele teve tumores no cérebro ou, vá lá, câncer. Não vou negar que o sangue subiu quando vi a luta ideológica ser feita de maneira tão baixa. Mesmo porque é óbvio que quem é contra tal pesquisa por motivos internos à sua própria consciência não é contra a medicina tout court.
O problema foi que, dias depois em outro post, eu me dirigi a outro leitor, na seção de comentários, e disse:
As críticas excessivas do Hermenauta contra o Reinaldo beiram o paroxismo, assim como a falta de respeito pelo colunista com câncer: piadas do tipo não beiram, pois ultrapassam a cafajestagem.
O “busílis” da questão, como diria Azevedo, é que parece que eu disse que Hermenauta fez piadas com o câncer de Azevedo. Talvez não simplesmente pareça, mas esteja sintaticamente implicado. Eu, sinceramente, não sei. Mas assumo que, bem, é o que parece e que foi essa a interpretação tomada por Hermenauta para me banir do blog dele por uma suposta calúnia.
Por isso e porque mais de um ano depois o assunto ressurgiu, quando o avisei, provocativamente, de que estava de volta*, tivemos uma longa conversa em sua caixa de comentários a qual eu, muito imprudente, não deveria ter tido, já que tenho provas de fim de semestre para entregar na quinta e no sábado, e para fazer na sexta e chegamos ao ponto em que ele disse:
OK, cara, já entendi: você não vai pedir desculpas. Portanto, sinta-se banido deste blog, again.
Antes de mostrar a minha resposta a isto, quero dizer algo. Por incrível que pareça, eu sou muito pouco arrogante (apesar de episódios casuais de húbris) e tenho toda a tranquilidade do mundo para reconhecer meus erros, desde que eles estejam claros e evidentes. Mas, como o desgaste foi realmente grande, e de fato as minhas palavras originais insinuavam que ele havia feito piadas com o câncer de Azevedo, eu escrevi o tal pedido de desculpas, para que fique claro que eu não tenho problema algum em descer de minha inexistente torre de marfim:
Hermenauta,
Eu reconheço que você NUNCA fez piadas com o câncer de Reinaldo Azevedo.
Além disso, assumo que a frase que dirigi ao Marcos estava mal formulada e poderia sim ser interpretada como dizendo que você fizera piadas com o câncer de Azevedo.
Não, você não fez piadas desse tipo. E eu peço desculpas por ter insinuado isso indiretamente.
Digo que mantenho a minha crítica original a ele, que é a seguinte: não se deve usar o estado de saúde de alguém para fazer guerra ideológica. E também, creio, a própria pessoa doente tem de respeitar o seu estado de saúde e não fazer uso dele para gerar publicidade. Reinaldo Azevedo não faz publicidade disto, e sim tenta lidar diariamente com as consequências da operação de retirada dos tumores. Para tanto, basta pensar por um segundinho na foto que o articulista disponibilizava em seu blog da Veja antes de aderir ao Wordpress e a foto que disponibiliza agora. Ou no fato de que se distribuíram chapeus na noite de autógrafos do seu livro sobre o “petralhismo”.
O que sinceramente me deixa enojado é ver que muita gente, embotada pelo ódio ideológico, escreve para Reinaldo fazendo troça de seu câncer diariamente, desejando-lhe a morte. Pois bem, Hermenauta não chegou ao ponto de fazer piadas, mas usou o fato para fazer crítica ideológica a respeito da pesquisa sobre células tronco. E não é difícil negar que o blogueiro de Brasília chega perto do ódio a Reinaldo Azevedo.
Enfim, posso até estar banido, mas com a consciência tranquila, para abusar do clichê.
Em tempo: é incrível como ideologicamente, em termos de economia de mercado e temas afins, Hermenauta e Reinaldo Azevedo oscilam entre a centro-direita e a centro-esquerda. Não é outro o motivo por que ambos já votaram em Serra, com muito orgulho… com muito amor. E também não é outro o motivo por que Hermenauta uma vez confessou-se para mim, naquela espécie de chat do Gmail, que se considera economicamente de direita.
* Sim, eu sei que ele provavelmente me lia, porque o Site Meter mostra o “domain name” dos visitantes e eu recebia visitas constantes de domínios gov.br que sempre me pareceram vir dele. É claro, não tenho certeza, mas acho provável, ainda mais por causa de visitas repetidas do domínio da Serpro (e casualmente da Abin, mas eu não acho que Gilberto Carvalho, bom conhecedor do caso Celso Daniel, usaria o novo SNI para vigiar alguém tão miúdo como eu).

Os Limites Individuais da Sensibilidade
Música não é só algo mais para mim. Claro, ela é como aquele chocolate para o humor do Pedro (ou para o humor de muita gente). Mas ela é mais que um chocolate. Pergunto eu: como se sente uma pessoa que come um chocolate em um momento x ou em um momento y? Trata-se sempre da mesma sensação, invariavelmente? Não, e, para além disso, nunca saberemos exatamente como se sente tal pessoa no momento em que absorve aquelas moléculas, nem saberemos que efeitos decorrem do processamento desta ou daquela substância (no sentido “dentro da lei” do termo).
A música não é para mim só música, repito. E quando alguém não gosta do que eu gosto é como um indício de que ela nunca vai simpatizar com que eu sinto e nunca conseguirá se colocar em meu lugar. Não haverá empatia no sentido talvez webberiano, talvez não webberiano do termo. Ela não conseguirá colocar-se em meu lugar, sentindo o que sinto e com a intensidade de meu vivido deste momento.
Há também a questão do que pode ser exprimido por palavras e também a daquilo que é comunicável. A comunicação humana pode funcionar para muitas coisas, mas nunca ela funciona em um estado completo de intercâmbio. Nós “deixamos quieto” way too often, pomos as diferenças de lado e, assim, não as sentimos como o outro a sente ali naquele momento. Tal estado de coisas provavelmente decorre disso que podemos chamar, de maneira um tanto bizzarra, substancialidade do indivíduo (ou indiviso, ou ímpar, ou único, ou, por fim, idêntico). Ninguém está em dois corpos ao mesmo tempo e nenhuma fisiologia responderá da mesma maneira que uma outra fisiologia. A comunicabilidade intersubstancial, assim, é possível, mas sempre será limitada. E a música, aqui, serve-nos de exemplo.